SHINE
SHINE INSIDE YOUR EYES MY FOOLISH EYES

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dissimetria:

tu é melhor que a filosofia
mais bonita que soberania nacional
mais gostosa que a democracia
mais sofisticada que o pós-estruturalismo

tu é pro meu corpo o que a reforma agrária seria, que sonho
pra terra que se eriça com a redistribuição das tuas mãos pelo meu território
tu é uma dessas ideias da razão
tua ideia é mais radical que a do tempo, ou da eternidade, ou de deus
essas que não conseguimos conceber
e eu ficaria horas te discutindo com alguém que eu nem sequer gosto
num bar, mesmo sem cerveja - que tristeza
eu usaria os argumentos mais absurdos
e teria as opiniões mais duvidosas sobre você

eu te vejo como os cristãos pensavam que os pagãos os viam
eu sinto o tesão que qualquer revolucionário sente contra a tirania 
eu sinto o que os insurgentes sentem contra a repressão
eu sinto essa vontade que parece mais que só desejo

queria teu beijo como a luta pela emancipação
incessante, inacabável, mirando o fim impossível
do que quer que eu queira contigo

tu é uma ideia das mais radicais, tu é um paradoxo
eu consigo te pensar, mas não consigo te imaginar

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dissimetria:

deixamos nossos corpos tristes na beira da selva
e quando entramos veio a tempestade acima dos cachos de banana
e suamos o calor melancólico
- a tristeza tem seus espiões no verão
como o passado tem na nostalgia

entre as raízes das árvores
nos protegemos como amantes contra a corrosão da noite
nos escondemos como crianças contra a transparência do dia
nos mantivemos a salvo das catástrofes
e depois mexíamos nas poças deixadas por elas
ensaiando nossas quedas nas águas
na praia de uma infância proibida

e quando vieram os jaguares
não éramos inocentes.
sabíamos que o fogo de nossas tochas era e sempre foi roubado.
mas não ligávamos mais para deuses
nossos corpos eram alegres e malditos.

minha flor de buriti,
tudo era mais certo quando estávamos no inferno
o paraíso é mais perigoso do que parece
o paraíso é muito mais perigoso do que parece.

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dissimetria:

a cartografia do teu corpo se inscreve na minha memória
em um canto dela, um mar cheio de monstros, uma ilha desconhecida:
“aqui há dragões”

aí, há dragões sísmicos; há cordilheiras que minhas mãos não alcançam
como também nunca alcançaram as frutas mais maduras, sempre nos ramos mais altos.
há neblina ao sul de você

há neblina em volta de mim
os mapas agora estão todos errados:
teu corpo manancial mudou o curso dos rios e cavou leitos mais fundos
teu corpo intempérie mudou o meu relevo e me erodiu escarpas mais delicadas
teu corpo tectônico inaugurou uma nova geografia

que bosta

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completamente lamentável gostar de alguém e não saber o que fazer sobre
sério, não to com concentração nem pra ler que é uma das poucas coisas que meu neurônio dá conta

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orogenese

dissimetria:

a cartografia do teu corpo
se inscreve na minha memória
e em um canto está escrito:
aqui há dragões.

aí há dragões sísmicos.
há cordilheiras que minhas mãos não alcançam
como antes não alcançam os livros
nas prateleiras mais altas

nos teus olhos a lenta sonolência
responsável pela minha orogêse
nos teus lábios tectônicos
a causa da minha deriva

o mapa nunca é o território
e o território é fino sobre a terra
que desliza sob ele

a terra foge do território
como você foge da lembrança
e quando te encontro
já está mudada:
teu corpo manancial mudou o curso dos rios e cavou leitos mais fundos

mas a erosão também me encontrou mudado.
teu corpo intempérie mudou o meu relevo e esculpiu rochas mais delicadas

assim, tenho inúteis nossos mapas
- obsoletos e esotéricos -,
mas temos dragões agora.

te quero sem países e territórios
sem roupas e sem acessórios
te quero como a terra nua
- fora dos mapas
sem caber na visão

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o presente ta sendo invadido pelo futuro, e por isso temos que lutar pelo agora. o problema é justo que o tempo só anda pra frente.

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